quarta-feira, 19 de abril de 2017

COMO O GLÚTEN INFLUENCIA A INFLAMAÇÃO INTESTINAL

Se pensar em inflamação intestinal que termos lhe vêm à mente?
Cólicas? Diarreia? Divertículos? Pólipos?
E termos como:
Obstipação? Edema? Flatulências frequentes com ou sem odor terrível?
Sintomas como esses consideramos “normais”, ou como resultado de inflamação intestinal?
Sem nos darmos conta, diariamente alimentamos a “nossa máquina” de uma forma a alimentar processos altamente inflamatórios. Um dos “combustíveis” que potenciam fortemente a inflamação intestinal é o GLÚTEN.

O QUE É? ONDE ESTÁ?

O tão famoso glúten é uma proteína presente no endosperma das sementes dos cereais da família das gramíneas. Esta proteína é constituída principalmente por gliadina (proteína que ajuda na ductibilidade e coesividade do cereal) e a glutenina
 (que tem como característica principal fornecer elasticidade, ou seja deixa o “pão fofo”).
Encontramos o glúten nos produtos alimentares que na sua constituição têm farinhas de trigo, centeio, cevada, couscous, bulgur, kamut, espelta, entre outros. Ou seja encontramos glúten em pães, massas, biscoitos, salgados, tortas, cereais matinais ou mesmo bebidas como cervejas.


Porque o glúten é utilizado também como conservante alimentar, está presente, mesmo que em quantidades pequenas em condimentos processados, cocktails, cosméticos, creme das mãos, shampoos, gelados, sopas instantâneas, adoçantes, produtos da soja e até em suplementos alimentares.
Para agravar a situação, a produção alimentar atual, incluindo a bioengenharia e genética, permitiu cultivar cereais que contém cerca de 40x mais glúten do que os cereais que se cultivavam há poucas décadas.

MANIFESTAÇÕES FISIO-PATOLÓGICAS DO CONSUMO DE GLÚTEN

A resposta rápida ou crónica do organismo e as consequentes manifestações a estes produtos dependem principalmente da quantidade de glúten presente, na quantidade consumida e da condição intestinal individual.
As manifestações de resposta orgânica ao glúten tornam-se ainda mais preocupantes quando se desenvolve uma resposta imunitária contra a mucosa intestinal – processo autoimune – Doença Celíaca. Esta condição resulta frequentemente em diarreia, desnutrição, cólicas fortes, flatulências excessivas e erupções cutâneas. A patologia pode ser identificada pelos sintomas e confirmada pela avaliação laboratorial de presença de Anticorpo Anti-Transglutaminase tissular (tTG) e o Anticorpo Anti-Gliadina (AGA).
Estudos têm mostrado que estes e outros anti-corpos de defesa, por mimetismo celular, identificam tecidos saudáveis e os marcam como tecidos a destruir – ativação autoimune! Proteínas cerebrais e células da glândula tiróide são alguns dos tecidos que têm sido sujeitos à auto-agressão resultando no aumento de incidência de patologias como Síndrome de Hashimoto, Esquizofrenia, Autismo, Alzheimer, Parkinson, Demência, entre outras.

A alergia alimentar ao glúten é uma reação exacerbada, imediata ou de curto prazo, do sistema imunológico a uma proteína específica, a gliadina. Esta torna-se o “gatilho” que reage com a imunoglobulina E (IgE), causando uma reação alérgica típica que desencadeia sintomas como rinite, asma, urticária, e em alguns casos mais graves, anafilaxia (dificuldades respiratórias e asfixia).

A intolerância ao glúten pode ter manifestações reconsideradas como menos explícitas, tais como obstipação, edema, flatulências frequentes, dores de cabeça e dores articulares. É percebida principalmente depois de alguns dias sem o consumo de produtos com glúten. A maioria dos sintomas intestinais melhoram ou até desaparecem quando se verifica um consumo alimentar isento de glúten e/ou outras proteína inflamatórias.

ELEMENTOS QUE POTENCIAM A INFLAMAÇÃO CONSTANTE

Especialmente a gliadina e também outras proteínas dos cereais, como a lectina, mostram uma potente ação inflamatória intestinal. Como? Mesmo que não sejamos celíacos (o que significa que há uma agressão crucial contra a mucosa que reveste as vilosidades intestinais), vários elementos presentes no glúten promovem um ambiente inflamatório:

  • Via inibidora enzimática: Além de inibirem a digestão do amido, os inibidores da tripsina da amilase (Amylase trypsin inhibitors - ATIs) podem provocar uma resposta imune inflamatória por darem um estímulo exacerbado a alguns tipos de Linfócitos e outros elementos de defesa como citocinas.
  • Produção de Zonulina: A fisiologia intestinal inclui uma barreira defensiva contra agentes estranhos. Todo o processo inflamatório induz a permeabilidade intestinal, porém na presença de glúten é exacerbada a produção de uma proteína inflamatória a Zonulina que destrói a junções apertadas intercelulares intestinais e permite a passagem muito mais fácil de bactérias e toxinas até a corrente sanguínea, que acabam por causar ainda mais inflamação no organismo. O aumento da permeabilidade intestinal tem sido diretamente associada a doenças auto-imunes, incluindo a diabetes tipo 1, desordens inflamatórias da pele e por ex. doença de Crohn.
  • Citocinas: A “guerra imunitária” faz com que elementos de defesa como os monócitos, macrófagos e células dendríticas mantenham a produção constante de citocinas como Proteína C reactiva, Interleucina (IL-6), Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-a). Estes marcadores inflamatórios mostram-se elevados em paciente com patologias tais como: alzheimer, psoríase, artrite reumatóide, doença cardiovascular, doença de crohn e asma.


PORQUE É DIFÍCIL RESISTIR – EFEITO VICIANTE

Certos péptidos do glúten ligam-se a recetores opióides - Exorfinas/Gluteomorfinas -semelhantes à morfina no cérebro, produzem um aumento sensorial. Quando estas exorfinas reagem com recetores de opiáceos no cérebro, produzem efeitos semelhantes aos fármacos opiáceos, como heroína e morfina, embora num nível muito mais leve, efeito de prazer extramente viciante.
É de notar também que os produtos que têm glúten na sua constituição estão na maioria das vezes associados a outro elemento extremamente viciante o AÇÚCAR.


O consumo diário e frequente de elementos inflamatórios prejudica os mecanismos celulares e as funções de vários órgãos incluído o sistema nervoso e função sexual.
Daí que é essencial conhecê-los e evitá-los na nossa rotina alimentar.

Nutrição
ines.pereira@clinicadopoder.pt

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