segunda-feira, 26 de junho de 2017

SAIBA COMO FAZER ESCOLHAS SAUDÁVEIS, APRENDA A LER OS RÓTULOS

Quantas pessoas da sociedade comem apenas produtos naturais, frescos, apanhados há poucas horas e sem embalagem? Sem nenhum conservante, corante, tratamento prévio?

Quanto ao estilo de vida e especialmente aos hábitos alimentares, muitas vezes a sociedade exige “rapidez”. Exige que sejamos rápidos, durmamos “rápido” (pouco), relaxemos “rápido”, comamos rápido, compremos rápido, não percamos tempo a cozinhar, a limpar. Os hábitos de conservação e embalamento alimentar abriram horizontes muito úteis no processo de disponibilidade alimentar e facilitaram a vida em muitos sentidos. Hoje pode obter-se informação muito importante quanto a segurança alimentar e também perceber qual poderá ser a resposta do organismo a determinado alimento por dar atenção à rotulagem do produto.

RÓTULO – O QUE É IMPORTANTE VER?

O desenvolvimento da ciência da rotulagem tem mostrado uma evolução notória no que toca à qualidade de informação e ao efeito visual. Obviamente esta ciência hoje não visa apenas fornecer informação essencial (por ex. data de validade, ingredientes) para o produtor e consumidores, mas também é aplicada uma estratégia de marketing de forma a chamar a atenção dos compradores e potenciar as vendas. Tendo esta questão em mente parece ainda mais importante ter uma posição crítica durante a leitura dos rótulos dos produtos alimentares.

Um rótulo de um produto alimentar deve ter informação essencial no que toca a:

- Lista de ingredientes
- Tabela Nutricional
- País de origem
- Identificação do Lote
- Conteúdo líquido
- Data de Validade
- Informação sobre alergénios
- (Data de congelação)
- Deve ter dimensão mínima para facilitar a leitura

(https://www.sns.gov.pt/noticias/2016/12/14/informacao-nutricional/)


LISTA DE INGREDIENTES

Os ingredientes estão ordenados por ordem decrescente de peso. Ou seja, os ingredientes em maior quantidade aparecem primeiro.
O ideal será escolher produtos que possuem ingredientes como os açúcares e gorduras mais no fim da lista (ou que nem constem da lista).

Existem nomes que representam várias formas de “açúcares” que são introduzidos a inúmeros produtos processados tais como: Dextrose, Frutose, Glucose, Adoçantes a base de milho, Xarope de cana, Xarope de malte, Melaço, Agave, assim com edulcorantes como o Acesulfame-K, Sucralose, Sacarina, Aspartame, Ciclamatos.

Atenção às gorduras hidrogenadas, parcialmente hidrogenadas, modificadas, refinadas e também as gorduras vegetais tais como: óleo de palma, de canola, de soja, de milho, girassol. Estes últimos, se consumidos em dose adequada são muito úteis para a regulação do organismo, porém a produção intensiva de muitos destes óleos faz com que a qualidade das sementes e grãos seja altamente alterada, muitas vezes é de produção transgénica (por ex. soja). No entanto, os rótulos não informam a presença de OGM (Organismos Geneticamente Modificado). Além disso, o processamento para obtenção financeiramente viável de óleos vegetais envolve os processos de pressão e aquecimento – refinação extrema, e a adição de vários produtos químicos industriais e solventes altamente tóxicos para aumentar a conservação dos produtos.

Uma referência, não perfeita, mas mais segura será procurar o certificado de produto biológico certificado e até a informação escrita de produto “Livre de modificação genética” (ou em Inglês “GMO Free”) e, quanto às gorduras, procurar informação de processamento com pressão a frio (ou extra-virgem).

Outros ingredientes presentes em muito produtos são os “E’s”. Os números E são códigos que identificam substâncias que podem ser usadas como aditivos alimentares para uso na União Europeia. O "E" significa "Europa". São substâncias que têm aprovação pela EFSA (do inglês European Food Safety Authority - Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) -https://www.efsa.europa.eu/

Os E’s estão agrupados em grupos:

  • E100-E199 (corantes)
  • E200-E299 (conservantes)
  • E300-E399 (antioxidantes, reguladores de acidez)
  • E400-E499 (espessantes, estabilizadores, emulsionantes)
  • E500-E599 (reguladores de acidez, agentes anti-aglomerantes)
  • E600-E699 (intensificadores de sabor)
  • E700-E799 (antibióticos)
  • E900-E999 (agentes de vidro, gases e edulcorantes)
  • E1000-E1599 (aditivos adicionais)


Apesar de permitidos, vários elementos podem trazer ao organismo efeitos secundários significativos principalmente por serem formados sinteticamente e pelo consumo frequente. Alguns exemplos a evitar: Acesulfame-K (E950), Sucralose (E955), Sacarina (E954), Aspartame (E951), Ciclamatos (E952), glutamato monossódico (E621), Tartrazina (E102), Cochinilla/ Carminas (E120), E127 (Eritrosina),  Corante caramelo (E150), Dióxido de titânio (E171).

https://e-aditivos.com/

É especialmente importante a atenção na leitura da lista de ingredientes quando está presente no organismo alguma intolerância e/ou alergia. É frequente a presença de elementos que podem ser fonte alergénica como soja, amendoim, lactose, soro de leite, glúten. A adição destes produtos por vezes é feita para potenciar a conservação de produtos ou melhorar o sabor. Esta adição pode significar que ao fim do dia a quantidade total consumida é muito elevada.

TABELA NUTRICIONAL

É importante notar que os valores apresentados não são exatos e sim representativos de um determinado produto ou mistura de elementos.

Atenção à PORÇÃO que foi estabelecida (ex. porção de batatas fritas cuja porção escolhida em gramas equivale apenas a 3 ‘batatas’- é necessário ter a consciência de que o consumo em principio será de uma dose maior).
A percentagem referida como DOSE REFERÊNCIA (DR) é calculada para um adulto médio supondo que a sua necessidade energética é 2000 kcal/dia e não é feito um cálculo adequado ajustado às necessidades reais de cada pessoa, mulher, homem, criança, de estatura baixa ou alta, sedentário ou ativo, etc.

O NÍVEL ENERGÉTICO ou calorias não são indicador de excelência para identificar um produto alimentar como bom/saudável, a questão será qual a qualidade e metabolismo desta energia e qual o objetivo para o seu consumo.

GORDURAS são essenciais para o nosso organismo, mas convém evitar principalmente as gorduras que passaram processamento industrial (incluindo as gorduras saturadas) estas potenciam a inflamação, daí que a sua ausência ou a presença em valores reduzidos deve ser o alvo ao escolher um produto.

Muitos produtos com a informação ‘Zero açúcares’ apresentam valores de gorduras maiores para manter o sabor apelativo, e consequentemente com valor energético semelhante.
De forma inversa, muitos produtos com informação ‘0% matéria gorda’ apresentam uma maior quantidade das várias formas de açúcares ou edulcorantes para o manter um sabor desejável à maioria da população.

A resposta metabólica ao consumo de HIDRATOS DE CARBONO (HC) (nomeadamente a absorção/acumulação/gasto) vai depender muito da sua origem, grau de refinação e quantidade de fibra presente, entre outros, mas não deixam de ser formas de açúcar (1g HC = 4 kcal).
Os valores de HC ‘DOS QUAIS AÇÚCARES’ referem-se a “combustível simples” para formar energia celular, combustível este rapidamente acumulado na forma de gordura se não for gasto através do exercício. Muitas vezes estas fontes são obtidas através de açúcares adicionados ou frutas adocicadas. Por exemplo, numa barra de cereais estão presentes 15g de HC dos quais 7,2g são açúcares o que equivale a quase 2 colheres de chá de açúcar branco.

Produtos ricos em Hidratos de carbono (ex. pão ou cereais) com mais de 6g de FIBRA e proteína (em 100g) são geralmente escolhas aceitáveis. Um valor superior a 10g seria o ideal.
Deve ser feita a comparação de produtos quanto ao nível de sal, escolhendo aqueles que têm de preferência menos de 0,3g de sal por cada 100g de produto. O valor máximo recomendável de sal para a generalidade das pessoas é de 5g/dia (2g/dia sódio).

O organismo necessita diariamente de aminoácidos provenientes de fontes proteicas ingeridas. O importante é a qualidade de PROTEÍNAS e não a quantidade. Como referência - para uma pessoa sedentária a necessidade proteica/diária será de cerca de 0,8g de proteína/kg de peso e para uma pessoa ativa 1,4g de proteína/kg peso (ex. pessoa sedentária). No entanto, a realização deste cálculo não é suficiente para definir a necessidade adequada.

As tabelas “Semáforo Nutricional” 

A ideia do Semáforo Nutricional foi desenvolvida por uma autoridade independente, a Food Standards Agency – FSA (Agência de Segurança Alimentar do Reino Unido) - com o objetivo de auxiliar os consumidores a efetuarem escolhas alimentares mais saudáveis (Tabela 1). Em Portugal foi feito um incentivo à utilização desta medida preventiva (Tabela do Ebook_SemáforoNutricional Continente).






CONCLUSÃO


  • LEMBRE-SE que a melhor opção é sempre que possível comer produtos frescos, sem aditivos e sem rótulos.
  • LEMBRE-SE que quanto mais ingredientes o produto tiver mais processado é.
  • EVITE ingredientes inflamatórios e acidificantes, EVITE ingredientes produzidos em agricultura intensiva e com alterações genéticas. 
  • Procure produtos com menos de 3g de Gordura (em 100g de produto).
  • Procure produtos com menos de 5g de Açúcares (em 100g de produto).
  • Procure produtos com pelo menos de 0,5 g de Sal (em 100g de produto).


Nem sempre podemos acreditar no que é escrito/rotulado, mas quanto mais conhecimento adquirirmos, melhores críticos poderemos ser. Não se conforme com fraca qualidade alimentar, não se habitue a sintomas maus mesmo que ligeiros, cuide do seu organismo, tenha saúde e qualidade de vida!

Dra Inês Pereira
Nutricionista
ines.pereira@clinicadopoder.pt


Referências:

  • Wilson BG, Bahna SL. Adverse Reactions of Food Additives. Ann Allergy Asthma Immunol. 2005; 95:499-507.
  • Prado, Marcelo; Godoy, Helena. Corantes artificiais nos alimentos. Departamento de ciências e alimentos. Faculdade de engenharia de Alimentos. Sp-Brasil. 237-250, 2003
  • Sharma A, Wongkham C, Prasongwattana V, Boonnate P, Thanan R, et al. (2014) Proteomic Analysis of Kidney in Rats Chronically Exposed to Monosodium Glutamate. PLOS ONE 9(12): e116233. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0116233
  • Boateng, L., Ansong, R., Owusu, W. B., & Steiner-Asiedu, M. (2016). Coconut oil and palm oil’s role in nutrition, health and national development: A review. Ghana Medical Journal, 50(3), 189–196.
  • AlDeeb OA1, Mahgoub H, Foda NH. (2013) Sucralose. Profiles Drug Subst Excip Relat Methodol. 38:423-62
  • https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23668410
  • http://www.veganbaking.net/articles/guides/the-problem-with-palm-oil
  • Dr. H.J. Roberts, Aspartame (NutraSweet) Is It Safe?, Charles Press, page 283/84
  • Cong, W., Wang, R., Cai, H., Daimon, C. M., Scheibye-Knudsen, M., Bohr, V. A., … Martin, B. (2013). Long-Term Artificial Sweetener Acesulfame Potassium Treatment Alters Neurometabolic 
  • Functions in C57BL/6J Mice. PLoS ONE, 8(8), e70257. http://doi.org/10.1371/journal.pone.0070257
  • M M Andreatta, S E Muñoz, M J Lantieri, A R Eynard, A Navarro (2008) Artificial sweetener consumption and urinary tract tumors in Cordoba, Argentina. Prev Med. 47(1):136-9. PMID: 18495230
  • Lima M.F., Rosenthal A., Deliza R.(2014) Semáforo Nutricional (Traffic Light Labelling): uma alternativa para melhores escolhas alimentares. Alimentação Humana. Volume 20. N.ºs 2 e 3


Sem comentários:

Publicar um comentário