terça-feira, 5 de março de 2019

A OUTRA HORMONA VITAL PARA O DESENVOLVIMENTO DO SEXO MASCULINO


Além da testosterona, outra hormona é, também, vital para o desenvolvimento do sexo masculino e não provém dos testículos.



 
AP Photo/Dieu Nalio Chery
Muitas vezes a primeira pergunta que fazem aos pais depois do nascimento de um filho é “parabéns, menina ou menino?”. Para pais de um em dois mil a quatro mil nascimentos, no entanto, não há uma resposta fácil. Isto ocorre quando o bebé tem genitália "ambígua", onde não está claro a que sexo pertence.

Em bebés do sexo masculino, por muito tempo pensou-se que isto seria causado por problemas ligados à testosterona – à semelhança dos distúrbios mais comuns, como: testículos não descidos e pénis malformados, que ocorrem respetivamente em 9% e 1% dos nascimentos.

Atualmente, sabe-se que a realidade é um pouco diferente. Segundo uma nova pesquisa outra hormona conhecida como androsterona - que se origina na placenta e na glândula adrenal do feto – também é vital para o processo que distingue fetos em meninos. Essas perceções têm o potencial de fazer uma grande diferença na forma como tratamos os distúrbios sexuais em bebés do sexo masculino no futuro - e também são relevantes para todo o debate sobre a identidade masculina e feminina.

Mesmo crianças pequenas sabem que homens e mulheres geralmente são diferentes. É de conhecimento comum que os meninos se tornam homens porque os testículos do homem produzem a hormona “masculina” testosterona e, por sua vez, a testosterona torna os homens masculinos. Sabemos disso graças aos estudos inovadores do endocrinologista francês Alfred Jost no início dos anos 50.

Little boy blue. noBorders - Brayden Howie
Em diversas etapas na vida dos meninos ocorrem explosões de testosterona que desempenham um papel fundamental no seu desenvolvimento como homens. A mais conhecida é a puberdade, na qual os testículos começam a produzir muito mais testosterona. Isso deixa os garotos mais peludos, aumenta a genitália e torna a sua voz mais grave (grossa).

As outras etapas são: a “mini-puberdade”, que ocorre cerca de três meses após o nascimento e que leva a certas alterações nos testículos e no cérebro; e cerca de três meses de gestação fetal, quando um menino ainda é um feto no útero.

Embora todas essas explosões de testosterona sejam, provavelmente, muito importantes para o desenvolvimento de um macho normal, é a que está presente no útero que afeta se a criança será, efectivamente, um menino. O que agora está esclarecido é que a testosterona e os testículos já não ocupam o pódio sozinhos.

Testosterona e super testosterona

A testosterona faz parte de uma família de hormonas sexuais masculinas chamadas androgénios. Para o desenvolvimento de um macho normal, a testosterona precisa ser transformada noutro androgénio chamado dihidrotestosterona ou DHT, uma "super-testosterona" que é cinco vezes mais potente que o seu primo. Esta conversão é feita no tecido que irá ser o pénis, juntamente com as outras partes do corpo que desenvolvem características masculinas. 

As consequências do processo são claras: os meninos que não conseguem transformar a testosterona em DHT nascem com aparência feminina e só se tornam mais obviamente masculinos na puberdade.

Estes incluem os Guevedoces na República Dominicana, que, devido a uma mutação genética, não possuem enzimas para fazer a conversão de DHT. Estudar essas crianças extraordinárias no início da década de 1970 levou a pesquisadora americana Julianne Imperato-McGinley a desenvolver o medicamento finasterida para tratar o cancro da próstata.

Guevedoce - Catherine e Carla, ambos nascidos com cromossomas sexuais XY, Catherine já entrou na puberdade e teve a explosão de testosterona que lhe confere carateristicas masculinas, Carla ainda não.

Durante anos, esta história foi considerada completa - a masculinização era devida à testosterona e à conversão da testosterona em DHT. Até que uma zoóloga australiana chamada Marilyn Renfree, numa elegante série de estudos nos anos 2000, publicou a primeira evidência de que as coisas podem não ser tão simples. O estudo foi realizado em wallabys (marsupial da família dos cangurus), uma vez que os jovens na bolsa eram facilmente acessíveis para fins experimentais e imitam muito do período da gravidez em seres humanos e outros mamíferos placentários. 

Renfree descobriu que os genitais dos wallabys machos jovens produziam DHT mesmo sem testosterona dos testículos. A única conclusão confiável era que eles convertiam outros androgénios em DHT.

Ficou claro que existem duas maneiras de ter um “sinal masculino” num feto de wallaby, ambos necessários para o desenvolvimento sexual normal. O primeiro é pela testosterona dos testículos. O segundo é através de diferentes androgénios que também podem ser produzidos por outros órgãos do ser humano, incluindo as glândulas supra-renais e o fígado do feto e a placenta. Estes processos passaram a ser conhecidos como o caminho “backdoor”.

Mas o mesmo é válido para os humanos? Mais tarde foi demonstrado que sim, estudando recém-nascidos humanos masculinos que não eram adequadamente masculinizados; estes apresentavam testículos não descidos e genitália ambígua, apesar dos testículos produzirem testosterona. Descobriu-se que eram incapazes de processar os androgénios de "backdoor" porque tinham mutações nos genes de enzimas fundamentais para o processo de conversão em DHT.

Como evidência adicional de que ambos os tipos de sinal masculino são essenciais para o desenvolvimento normal de fetos masculinos humanos, também foi descoberto que fetos cujas placentas não funcionam adequadamente têm uma probabilidade duas vezes maior de nascer com testículos não descidos ou com pénis malformados - especialmente se também nascem anormalmente pequenos (para a idade gestacional).

O que se mostrou neste estudo

Neste estudo, que também envolveu a Universidade de Glasgow e colaboradores franceses e suecos, foi possível explicar o porquê. Mediram-se os níveis de diferentes hormonas sexuais masculinas no sangue de fetos masculinos e femininos, e surpreendentemente descobriu-se que apenas dois androgénios eram mais elevados em homens do que em mulheres: testosterona e androsterona

A relevância para a placenta é que é até 6.000 vezes mais pesada que o feto e produz grandes quantidades de uma hormona chamada progesterona, que pode ser convertida em androsterona - assim como o fígado e as glândulas supra-renais do feto também o podem fazer. Os testículos dos fetos humanos não têm capacidade de fazer essa conversão.

Desenvolvimento fetal. Sebastian Kaulitzki
Também se mostrou que a testosterona e a androsterona foram convertidas em DHT nos tecidos masculinos como o pénis. Não só ambos os androgénios são necessários para masculinizar o feto, como pode haver anormalidades quando os níveis são mais baixos do que o normal: por exemplo, um bom índice do grau de masculinização é a distância entre o ânus e os genitais, que se revela menor que o habitual em recém-nascidos com pénis mal formado.

Pessoas afetadas por distúrbios do desenvolvimento sexual, incluindo pénis mal formado, podem ter tempos muito difíceis e enfrentar cirurgias delicadas, terapia hormonal e outros tratamentos. Cada nova informação sobre como se dá a masculinização, aumenta a perspetiva de melhorar quando e como esses distúrbios são detetados e tratados no futuro. 

O diagnóstico precoce da redução da função placentária relacionada com a produção de androgénios no início da gestação pode permitir o tratamento antes que a formação do pénis esteja completa, evitando a necessidade de cirurgia corretiva mais tarde na vida.

Uma mensagem a reter sobre este estudo é que, embora a testosterona e a androsterona sejam de facto mais elevadas, em média, nos fetos masculinos do que nos femininos, a diferença é muito pequena. Há também considerável sobreposição entre os níveis mais baixos em meninos e os níveis mais altos em meninas. Quem está convencido de que a única escolha para as pessoas é uma escolha binária entre homem ou mulher, não tem as suas convicções com base na realidade biológica. Crenças preciosas sobre a supremacia da testosterona e dos testículos no desenvolvimento do sexo masculino também são obviamente imperfeitas.


Traduzido e adaptado do original: Move over testosterone,another hormone is also vital for making boys – and it doesn’t come fromthe testes” do The Conversation, republicado pelo site www.realclearscience.com sob o título  “The Other Hormone That's Vital for MakingBoys”.



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